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Vídeo lançado como parte das comemorações de 20 anos de homologação da Terra Indígena Yanomami. O vídeo “Grupo Yanomami Isolado” foi filmado em julho de 2011, por Morzaniel Iramari Yanomami, atual Coordenador de Comunicação da Hutukara, em um sobrevôo realizado pela Funai, através da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye´kuana.

New picture of an uncontacted Yanomami village in Brazil
New picture of an uncontacted Yanomami village in Brazil © Hutukara

Survival has released new pictures of an uncontacted Yanomami village in Brazil, 20 years after one of its crucial campaigns created the biggest forested indigenous territory in the world.
Survival International, Yanomami leader Davi Kopenawa and Brazil’s Pro Yanomami Commission were instrumental in securing the victory.
These new pictures emphasize how important the territory is in protecting the Yanomami from goldminers who devastated the tribe in the 1980s.
The ‘Yanomami Park’ is one of many initiatives spearheaded by Survival International. In a new section of its website, it highlights how the time when entire peoples could be wiped out without anyone noticing is drawing to a close.
Survival’s Director Stephen Corry said today, ‘Survival’s supporters can be immensely proud of the success that this sighting represents. Of course many tribal peoples, including the uncontacted Yanomami, are still threatened by the illegal occupation of their land, so we can’t afford to give up the fight. The very existence of uncontacted Yanomami, however, proves that persistent campaigning pays off. Here’s to many more such victories.’
The Yanomami suffered years of oppression at the hands of gold-miners. Violence and disease saw their population fall by 20 percent in just seven years.

Illegal goldmining continues to bring deadly diseases to Yanomami communities
Illegal goldmining continues to bring deadly diseases to Yanomami communities © Fiona Watson/Survival
Brazil’s government announced its decision to outline the borders of a Yanomami territory in November 1991. It was signed into law the following year.
These new pictures, taken by Yanomami for their association, Hutukara, show how uncontacted members of the tribe continue to live in the Amazon, building traditional malocas at the heart of their communities.
But whilst recognition of Yanomami land rights has improved conditions for the tribe, very real threats still exist. Illegal goldmining camps continue to operate just 15 kilometers from uncontacted Yanomami.


‘Our land is our heritage.’Shaman Davi Kopenawa Yanomami, speaks about what the proposed mining bill would mean for his people.

Illegal mining on Yanomami land transmits deadly diseases like malaria and pollutes the rivers and forest with mercury.

At least 800 people from Brazil’s army and police force are now involved in a mission to remove illegal goldminers. It has been reported that so far 30 have been evicted.

fonte

Repercussão da divulgação das fotos do índios isolados na TIY‏ 

Cf. também:

Folha.com - Fotografia - Poder - Yanomami - 23/11/2011
Yanomami. Clique nas imagens para ver os álbuns. ONG Survival International divulgou fotos aéreas de uma tribo isolada de índios yanomami em Roraima ...
http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/5487-yanomami#foto-102251

New uncontacted pictures validate Brazil's Yanomami ... - xingu otomo
Survival has released new pictures of an uncontacted Yanomami village in Brazil , 20 years after one of its crucial campaigns created the biggest forested ...
http://www.xingu-otomo.net.br/new-uncontacted-pictures-validate-brazil%E2%80%99s-yanomami-territory/

Survival divulga novas imagens de aldeia indígena Yanomami que ...
A tribo com, aproximadamente, 38 indígenas está ameaçada pela volta dos garimpos ilegais, que continuam funcionando a apenas 15 quilômetros dos ...
http://acritica.uol.com.br/amazonia/Manaus-Amazonas-Survival-indigena-Yanomami-permanece-Amazonia_0_595740840.html

ONG divulga fotos de tribo de índios isolados em Roraima - BOL ...
A ONG Survival International divulgou nesta terça-feira (22) fotos aéreas de uma tribo isolada de índios yanomami, em Roraima. Segundo a organização, as ...
http://noticias.bol.uol.com.br/brasil/2011/11/22/ong-divulga-fotos-de-tribo-de-indios-isolados-em-roraima.jhtm

Yanomami village in Brazil - ABC News (Australian Broadcasting ...
Yanomami village in Brazil. Posted November 23, 2011 08:02:39. First contact: The Yanomamivillage deep in the Amazonian jungle. survivalinternational.org ...
http://www.abc.net.au/news/2011-11-23/yanomami-village-in-brazil/3688032

Folha.com - Poder - ONG divulga fotos que seriam de tribo de índios ...
O coordenador da associação Hutukara, Ailton da Silva, disse à agência France Presse que as fotos foram tiradas em março pelo fotógrafo yanomami ..
http://www1.folha.uol.com.br/poder/1010405-ong-divulga-fotos-que-seriam-de-tribo-de-indios-isolados-em-rr.shtml

Yanomami « ASU Art Museum
While filming Video Trans America, Downey and his family spent nine months living with theYanomami in the Amazon. This bright, vibrant, color-pencil art is ...
http://asuartmuseum.wordpress.com/tag/yanomami/

New "uncontacted tribe" pictures validate Brazil's Yanomami territory ...
New picture of an uncontacted Yanomami village in Brazil. © Hutukara/Survival Survival International has released new pictures of an unconta...
http://aidresources.org/new-uncontacted-tribe-pictures-validate-brazil%E2%80%99s-yanomami-territory-20-years-on/

NGO releases new pictures of Brazil's isolated Amazon tribe
The Yanomami suffered years of oppression at the hands of gold miners. Violence and disease saw their population fall by 20 percent in just seven years. ...
http://www.terradaily.com/reports/NGO_releases_new_pictures_of_Brazils_isolated_Amazon_tribe_999.html

Handout aerial picture released by the Hutukara Yanomami - Yahoo!
View the photo Handout aerial picture released by the Hutukara Yanomami Association showing huts of an uncontacted Yanomami tribe on Yahoo!. View the ...
http://uk.news.yahoo.com/photos/handout-aerial-picture-released-hutukara-yanomami-association-showing-photo-181458678.html
 

19.04.2013 | "Carta dos Povos Indígenas do Brasil"

Desde que assumiu a presidência, em 2011, Dilma Rousseff tem se negado a dialogar com o movimento indígena. Durante esta semana, em mobilizações legítimas de nossos povos reunidos no Abril Indígena – 2013, fomos recebidos pelos presidentes da Câmara dos Deputados (Legislativo) e do STF (Judiciário). A presidenta Dilma se negou a falar conosco ou marcar audiência para os próximos dias. Por quê?
Nesta quinta-feira, 18 de abril, estivemos no Palácio do Planalto, mais de 700 lideranças, representando 121 povos indígenas. Protestamos porque nossos parentes estão sendo assassinados, porque nossas terras não são demarcadas. Pedimos uma audiência com Dilma, mas o máximo que nos ofereceram foi uma conversa com o ministro Gilberto Carvalho e um encontro com os demais ministros nesta sexta-feira, 19 de abril, Dia do Índio, para o governo ter a foto para suas propagandas de que é preocupado com as questões dos índios.

Não, não queremos mais falar com quem não resolve nada! Há dois anos entregamos, nós povos indígenas, durante o Acampamento Terra Livre 2011, uma pauta de reivindicações para esses ministros e nada foi encaminhado. De lá para cá perdemos as contas de quantas vezes em que Dilma esteve com latifundiários, empreiteiras, mineradores, a turma das hidrelétricas. Fez portarias e decretos para beneficiá-los e quase não demarcou e homologou terras tradicionais nossas. Deixou sua base no Congresso Nacional entregar comissões importantes para os ruralistas e seus aliados.

A gente não negociou nada durante os protestos no Palácio do Planalto. Queríamos dizer o que nos angustia e preocupa; queríamos dizer isso para a presidenta. Dilma está aliada de quem nos mata, rouba nossas terras, nos desrespeita e pouco se importa para o que diz a Constituição. Quando Dilma não diz nada diante de tudo o que vem acontecendo – mortes, PEC 215, PL 1610 – e ainda baixa o decreto 7957/2013 e permite a AGU fazer a Portaria 303,Dilma mostra de que lado está e sua expressão anti-indígena.

Luziânia, Goiás, 19 de abril de 2013

Povos indígenas reunidos no Abril Indígena - 2013


As irmãs guarani-caiová Maricleide (esq.) e Marineide Cavanha em acampamento improvisado ao lado da BR-463, a 15 km de Dourados (MS)


As irmãs guarani-caiová Maricleide (esq.) e Marineide Cavanha em acampamento improvisado ao lado da BR-463, a 15 km de Dourados (MS), onde vivem
A índia guarani-caiová Tamiamara Souza (5) brinca com gatinho em frente a sua casa na aldeia Passo Piraju, em Dourados
A índia guarani-caiová Caciele Pedro (9) brinca na aldeia Yta'i, localizada em um pequeno lote de terra dentro de fazenda no município de Douradina
Construção recente de escola e posto de saúde usados pelos índios guaranis-caiovás poderá ser demolida, pois a área sofre ordem de despejo pela justiça na aldeia de Passo Piraju, em Dourados
Silmara Souza (22) índia guarani-caiová, ao lado de sua filha Tamiamara (5), em frente a sua casa na aldeia Passo Piraju, em Dourados
Lider da aldeia Guyrá Kambi'y, Ezequiel João (41), da etinia guarani-caiová, em Douradina
Ricardo Jorge (69) (ou Awahende, nome indígena), da aldeia Guyrá Kambi'y, em Douradina
Vander (esq.) e Valdison, da aldeia guarani-caiová de Passo Piraju, brincam em área confinada em pequeno trecho de terra dentro de fazenda, em Dourados
Índios guarani-caiová, da aldeia Guyrá Kambi'y, durante ritual de confraternização, em Dourados
Joel Hilton (54), índio guarani-caiová da aldeia Yta'i, localizada em um pequeno lote de terra dentro de fazenda no municipio de Douradina, aguarda resoluções do Governo Federal sobre o problema da posse de terra
O cacique Faride Mariano de Lima, da aldeia guarani-caiová de Laranjeira Ñanderu, localizada no município de Rio Brilhante, reclama do pequeno lote de terra, que recebeu por ordem judicial, localizado dentro de fazenda


# fotos de  Eduardo Knapp (31.Out.2012)
O "TV Folha" foi conferir como vivem os índios da etnia guarani-caiová, na região do cone sul de Mato Grosso do Sul, próximo à fronteira com o Paraguai. O repórter Daniel Carvalho e o repórter-fotográfico Eduardo Knapp visitaram a tribo, que é a segunda maior população indígena do país, segundo o IBGE, e vive espremida em reservas ou em acampamentos improvisados em fazendas e às margens de rodovias. Eles dizem querer voltar para o local de onde foram expulsos, seus tekohás, terras sagradas onde afirmam que seus antepassados viveram e hoje estão enterrados. Mas a terra agora está nas mãos dos fazendeiros, que cultivam soja, cana e gado em áreas adquiridas do governo desde o fim da Guerra do Paraguai (1864-70). Os índios relatam ataques e enfrentam disputas judiciais. Aqueles que não resistem ao clima tenso ajudam a colocar o Estado no topo do ranking de suicídios. Também há registro de homicídios em enfrentamentos relacionados à luta pela terra.[18/11/2012]
REPORTAGEM

Guaranis-caiovás vivem em confinamento em MS

As irmãs guarani-caiová Maricleide (esq.) e Marineide Cavanha em acampamento improvisado ao lado da BR-463, a 15 km de Dourados (MS), onde vivem. foto: Eduardo Knapp
"A tristeza nossa não é barata. A tristeza nossa é cara." O desabafo do cacique Getúlio Juca, 60, da aldeia Jaguapiru, em Dourados, resume o drama vivido pelos 43 mil índios da etnia guarani-caiová, na região do cone sul do Estado de Mato Grosso do Sul, próximo à fronteira com o Paraguai.
A segunda maior população indígena do país, segundo dados do IBGE, vive espremida em reservas ou em acampamentos improvisados em fazendas e às margens de rodovias.
Eles dizem querer voltar para o local de onde foram expulsos, seus "tekohás", terras sagradas onde afirmam que seus antepassados viveram e hoje estão enterrados.
Mas a terra agora está nas mãos dos fazendeiros, que produzem soja, cana, milho e gado em áreas adquiridas do governo federal desde o fim da Guerra do Paraguai (1864-70), quando o Império começou a colonizar a região.
A partir da década de 1950, a expulsão dos índios e a concessão de títulos de propriedade a fazendeiros se intensificou. Nativos eram retirados das terras pelo SPI (Serviço de Proteção ao Índio) --órgão federal que mais tarde daria lugar à Funai (Fundação Nacional do Índio)-- e levados para reservas.
Os índios relatam ataques e enfrentam disputas judiciais. Aqueles que não resistem ao clima tenso ajudam a colocar o Estado no topo do ranking de suicídios. Também há registro de homicídios em enfrentamentos relacionados à luta pela terra.
A maioria dos guaranis-caiovás vive em terras indígenas: segundo a Funai, eles têm hoje 15 territórios regularizados, que ocupam uma área de 20 mil campos de futebol. O primeiro é de 1915.
Mesmo nas terras oficialmente indígenas, como a Reserva de Dourados (a 229 km de Campo Grande), os guaranis-caiovás vivem em situação de confinamento, que a Folha testemunhou no fim de outubro durante viagem de uma semana pela região.
Em Dourados, num espaço de 3.470 hectares, cortados pela rodovia MS-156, vivem 14 mil índios.
É como se quatro índios fossem obrigados a viver, plantar e rezar no espaço de um campo de futebol.
De acordo com a antropóloga Lucia Helena Rangel, o espaço é pequeno se levado em conta que eles sobrevivem da agricultura. "Assentamentos de reforma agrária na região Sul chegam a ter 50 hectares por família", compara.
A vice-procuradora-geral da República, Deborah Duprat, já definiu a reserva como "a maior tragédia conhecida na questão indígena em todo o mundo".
"Estamos vivendo com muitas comunidades, tudo espremido aqui na aldeia. A terra está muito pouca para nós. Se a gente for colocar certo as coisas, não dá meio hectare para cada um", disse o cacique Getúlio Juca.
Na reserva, há casas de alvenaria e as tradicionais moradias de sapê. É possível ver mercearias e igrejas evangélicas pela área. "Em cinco, dez anos, não vamos mais ter espaço para viver, para plantar", disse o índio.
Chorando, Alda Silva, 66, mulher do cacique, interrompe a entrevista: "Morremos e derramamos sangue por causa da nossa terra e não vemos resultado. Perdemos nossa família. Nós queremos só a nossa terra. Não queremos a fazenda do fazendeiro."
MORTE
Levantamento do Ministério da Saúde mostra que, de 2000 a 2011, 555 índios se suicidaram, em geral por enforcamento. Só neste ano, até julho, 32 casos foram confirmados pela pasta. Praticamente todos eram da etnia guarani-caiová.
Enquanto na média nacional a taxa de suicídio em 2007 foi de 4,7 por 100 mil habitantes, nas áreas indígenas do sul de Mato Grosso do Sul, chegou a 65,68 por 100 mil.
Em média, um índio se suicida a cada seis dias no Estado. A maioria é do sexo masculino e tem entre 15 e 29 anos.
Os índios consideram o suicídio previsível: dizem que o céu fica vermelho quando alguém vai tirar a própria vida. "A doença fica no corpo durante sete dias. Ela procura os mais jovens. [O suicida] quer gritar, fica com raiva. Aqui já teve muito suicídio", afirma o cacique Getúlio.
Em Iguatemi, no extremo sul do Estado, Marilene Benites Romeiro, 23, disse que já pensou em acabar com a própria vida. "Da minha parte, tenho vontade de desistir. Às vezes tenho vontade de me matar. O que me segura são meus filhos".
Marilene contou que cinco dias antes havia sido atacada por pistoleiros enquanto caminhava na estrada, em direção ao centro da cidade. A Polícia Civil investiga o caso.
Agora ela usa uma espécie de tchaco (corrente com uma haste usada em artes marciais) a tiracolo. Além disso, dois jovens da aldeia passaram a escoltá-la.
A índia diz que tragédia na vida dela não é novidade. No ano passado, afirma, seu irmão foi degolado e teve os olhos perfurados. A Delegacia de Iguatemi informou desconhecer o caso.
Relatório do Ministério da Saúde publicado em abril considera "inquietantes" os números de violência.
Nos últimos dez anos, foram 317 homicídios, alguns cometidos pelos próprios índios. Em 70% dos casos, foram usadas armas brancas. Em 2007, enquanto a taxa de homicídios no Brasil era de 25,5 por 100 mil habitantes, nas áreas indígenas de MS esse índice chegou a 67,37.
A proteção dos índios fica a cargo da Polícia Federal e da Força Nacional de Segurança Pública. Procurado pela Folha, o Ministério da Justiça não divulgou o efetivo que está na área.
PARA O MUNDO
Foi a localidade de Pyelito Kue --mistura de português, espanhol e guarani que significa algo como "o lugar onde ficava o pequeno povoado"-- a responsável por expor para o mundo, em outubro, o drama dos guaranis-caiovás.
No texto divulgado pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e reproduzido massivamente nas redes sociais, os índios afirmaram que resistiriam até a morte à tentativa de desocupação do local em que vivem há um ano, numa área de dois hectares na fazenda Cambará, em Iguatemi, extremo sul do Estado.
"Pedimos ao Governo e [à] Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva", diz a carta interpretada equivocadamente por ativistas como um anúncio de suicídio coletivo.
Em janeiro, o proprietário da fazenda pediu a remoção dos índios à Justiça Federal em Naviraí (MS), que acatou o pedido em setembro.
Em meio à repercussão do caso, o TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região), em São Paulo, garantiu a permanência dos índios.
A discussão, porém, está longe do fim. O caso deve parar no STF (Supremo Tribunal Federal), onde esse tipo de questão costuma demorar para ser resolvida.
A Folha não conseguiu falar com o dono da fazenda.
O acesso ao acampamento é difícil. Primeiro é preciso percorrer de carro as estradas de terra da reserva Sassoró. Depois, caminha-se por cerca de um quilômetro numa trilha aberta pelos índios, até chegar a uma das margens do rio Jogui (ou Hovy).
Para atravessar o rio, que tem cerca de dois metros de profundidade e 100 metros de largura, é preciso ir por dentro d'água, tendo como apoio um fio de arame estendido de uma margem à outra, para vencer a correnteza. Próximo à margem, crianças brincam na água.
A reportagem encontrou poucos adultos em Pyelito Kue. Ademir Riquelme Lopes, 22, se apresenta como "escrivão indígena" e diz que foi o responsável pela carta que fez ecoar o lamento dos 170 acampados.
"A gente está numa guerra. Estamos prontos para enfrentar o que vier. A gente sabe como foi nosso passado e precisamos recuperá-lo. Tem que reconhecer o que é nosso. [Na terra], a gente planta, a gente caça, dela a gente tira as plantas medicinais, nela a gente se diverte, nela a gente vive. A terra é sagrada", afirma Ademir.
Ele disse que a interpretação equivocada da carta que tomou conta das redes sociais acabou sendo positiva para eles, mas deixa claro: "Jamais a gente vai pensar [em suicídio]. Se os pistoleiros ou outros órgãos [polícia e Justiça] vierem nos atacar, vão ter que nos matar aqui, porque os nossos antepassados morreram aqui".
Os acampamentos visitados pela Folha são simples e quentes, mas limpos. Há poucas ocas e a maioria das moradias improvisadas são tendas de lona preta, semelhantes às dos acampamentos de militantes sem-terra pelo país.
Em Pyelito Kue, os barracos ocupam uma clareira no meio da mata.
INSEGURANÇA
Os índios da localidade simbolizam a insegurança jurídica em que vive a maioria dos guaranis-caiovás e muitos produtores rurais.
A Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso do Sul) calcula que hoje existam 70 propriedades ocupadas por índios em Mato Grosso do Sul.
Em Rio Brilhante (165 km de Campo Grande), a Justiça garante a existência da aldeia Laranjeira Nhanderu. O cacique local, "Direito Humano" Faride Mariano de Lima, 53, adotou a alcunha após receber homenagem de uma rede ONGs e movimentos sociais.
Os cerca de 150 índios que Faride diz viverem lá estão na terra há dois anos. Antes de conseguirem certa estabilidade, moraram em tendas na beira de uma estrada. O cacique diz que a tribo foi alvo de tiros e chegou a ter os barracos incendiados.
A permanência deles na área de reserva legal da propriedade é garantida por ordem judicial até que a perícia antropológica seja concluída. Enquanto isso, eles dependem da ajuda da Funai, que a cada quinze dias manda 88 cestas de alimentos, duas para cada família.
No espaço em que estão, convivem com cobras, aranhas, escorpiões, mosquitos e um calor que geralmente passa dos 40ºC.
Situação mais tensa é a das 70 famílias de Passo Piraju, no município de Dourados. Segundo o Ministério Público Federal, os índios estão numa área de 40 hectares na área da fazenda Campo Belo há oito anos. Mas há um mês foi expedida uma ordem de reintegração de posse.
Ali há energia elétrica, antena parabólica, escola e posto de saúde. O líder Carlito de Oliveira, 76, só lamenta. "Estou amarrado pelo pescoço".
Carlito se diz vítima constante de atentados de pistoleiros e afirma que não vai reagir à decisão judicial. "Nós não vamos brigar. Vamos nos ajoelhar e dizer 'mata todos nós' e acabou".
NA BEIRA DA ESTRADA
Se a vida nos acampamentos já parece incerta, mais dramática é a situação das 14 famílias que vivem desde 2009 no KM 15 da BR-463, que liga Dourados a Ponta Porã, na fronteira com o Paraguai.
Uma bandeira do Brasil tremula num mastro improvisado. As lonas pretas transformam os barracos em fornos. O acampamento Apika'y, na região conhecida como Curral do Arame, a cerca de 10 km do centro de Dourados, fica em posição estratégica. Do outro lado da rodovia está o que dizem ser o"tekohá" deles, coberto por uma plantação de cana.
Quem manda no acampamento é a cacique Damiana Cavanha, 73.
Assumiu a liderança depois de ter perdido o marido e três filhos atropelados.
Perto do cemitério indígena localizado nas terras da fazenda Serrana há um pequeno riacho. A água serve para beber, tomar banho e lavar roupa. O problema é que, quando chove, o agrotóxico usado na lavoura escorre todo para a água, dizem os índios.
LONGA ESPERA
Sem opção, os índios aguardam. A Funai firmou um CAC (Compromisso de Ajustamento de Conduta) com o Ministério Público em 2007, comprometendo-se a demarcar terras em Mato Grosso do Sul até 2010. O prazo expirou e nada foi feito. Segundo a Funai, fazendeiros entraram na Justiça impedindo o andamento dos processos demarcatórios.
Em 2008 começaram os estudos antropológicos de Pyelito Kue. Agora, sob pressão social, a Funai diz que esses estudos serão concluídos até o início de dezembro.
AGRONEGÓCIO
Do outro lado, os fazendeiros também esperam e acusam os índios de terem invadido suas terras.
"São propriedades com toda a documentação. São títulos do governo federal", diz o presidente do Sindicato Rural de Dourados, Marisvaldo Zeuli.
O presidente diz que a convivência com os índios era pacífica até o início da atividade de ONGs na região. A Famasul corrobora a afirmação e diz ainda que essas organizações fabricam "factoides".
Segundo Zeuli, elas vieram para "atrapalhar o agronegócio" na região.
"Se existe um débito com a questão indígena, não é só o produtor rural que tem que pagar", afirma.
Para a Famasul, a demarcação das 39 terras indígenas relacionadas no CAC assinado pela Funai prejudicará 26 municípios, "comprometendo as terras mais férteis de Mato Grosso do Sul".
Segundo a federação, o Estado ocupa o quinto lugar nos rankings nacionais de produção de soja, milho e cana de açúcar e tem o quarto maior rebanho do País.
"A vítima da violência nessa situação é o produtor rural que sofreu a invasão de terra. O Judiciário é o caminho correto para questionar. Fazer justiça com as próprias mãos não é permitido numa sociedade como a nossa", afirmou o assessor jurídico da Famasul, Carlo Daniel Coldibelli.
O Sindicado Rural de Dourados defende que o governo federal pague pelas terras o valor de mercado.
Mas a Constituição diz que a União não pode comprar terras de ocupação tradicional de povos indígenas. Segundo a legislação, os títulos incidentes nas terras indígenas são nulos e só cabe indenização pelas benfeitorias.
O procurador da República em Mato Grosso do Sul, Marco Antonio Delfino de Almeida, defende que a União indenize os proprietários de terras que têm títulos de propriedade expedidos pelo próprio governo federal.
Já a Funai diz ser favorável à efetivação do Fundo Estadual de Terras Indígenas criado para captar recursos e indenizar os produtores "atingidos" por demarcações de terras.
O governador André Puccinelli (PMDB) não quis se manifestar sobre a questão indígena por entender que o tema diz respeito à União.
Vídeos relacionados:
Cf.
Um dos fundadores do CIMI, Egon Heck trabalha há mais de 40 anos junto a comunidades indígenas | Foto: Valter Campanato/ABr
O indigenista e cientista político Egon Heck trabalha há mais de 40 anos ao lado de comunidades indígenas em todo o país. Militante do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Egon é ex-padre e um dos fundadores dessa entidade. Formado em Teologia e em Filosofia, com pós-graduação em Ciência Política, ele sempre acompanhou de perto a situação dos índios Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul.
Atualmente, a luta dessa tribo pelo retorno ao seu território original ganhou repercussão após um manifesto em que, diante do frequente descaso em relação às suas reivindicações, pediam que fosse decretada sua “extinção coletiva” pelo governo federal e pela Justiça. Nesta entrevista ao Sul21, Egon Heck faz um resgate histórico da situação dos Guarani-Kaiwoá na região e conta como são as condições de vida desse povo.
“Na área de Dourados, existe em torno de 15 mil indígenas confinados em 3,5 mil hectares. Foram levados para lá de 40 regiões diferentes. É uma área totalmente sem mata, sem condições propícias para a reprodução física e cultural dos Guarani-Kaiowá. É impossível, nessas condições, perpetuar a economia e a visão cosmológica de mundo deles”, comenta.
Para o especialista, as reservas indígenas se configuram, na prática, como prisões – pois não representam territórios sagrados para os índios e misturam diferentes tribos num espaço muitas vezes pequeno. “Os índios se locomoviam por toda uma região e acabaram confinados em pequenas áreas. As reservas são, na verdade, confinamentos de índios. São depósitos onde eles são colocados para serem disponibilizados como mão-de-obra agrícola”, acusa.

[ENTREVISTA]



“Mais de 90% das famílias Guarani-Kaiowá depende diretamente da cesta básica. Isso gera um problema psicológico e cria uma cultura de dependência”

Para indigenista, Guarani-Kaiowá do MS vivem uma das piores situações de povos indígenas em todo o mundo | Foto: campanhaguarani.org
Sul21 – Como vivem os Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul?
Egon Heck – A realidade vivida pelos Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul é de uma gravidade que eu nunca havia visto nos 40 anos em que trabalho com povos indígenas. A violência que eles sofrem é decorrente da falta de terra, que é decorrente de um processo histórico e atual de preconceito e discriminação. Essa conjunção de fatores faz com que eles se encontrem hoje numa das piores situações no Brasil e no mundo. Os números são alarmantes, seja em termos de mortes por conflitos violentos na luta da terra, seja por mortes decorrentes da falta de condições de vida. Isso faz com que praticamente não seja mais possível se reproduzir o tecido social dos Guarani-Kaiowá. Nessas condições, a cultura deles não tem como enfrentar as diversas situações de confronto, que são agravadas pela fome, pelo alcoolismo e por outros elementos que vão se introjetando nas comunidades indígenas. Temos um quadro de extrema gravidade e o que mais preocupa é que não há decisões políticas para que se enfrente positivamente essa situação. É preciso remover esses obstáculos: a falta de terra e a falta de condições de sobrevivência.
Sul21 – Sem terras e condições de vida adequadas, como eles se sustentam?
Egon - Hoje, mais de 90% das famílias Guarani-Kaiowá depende diretamente da cesta básica. Isso gera um problema psicológico muito forte e cria uma cultura de dependência e desestímulo ao próprio trabalho de produção dos alimentos. Eles praticamente não conseguem encontrar trabalho. Os empregos fora da aldeia eram nos fundos de fazendas e deixaram de existir com a mecanização da agricultura. Hoje, cerca de 10 mil índios trabalham nas usinas de cana de açúcar. Podemos imaginar que a situação tende a se agravar, ao invés de melhorar. Isso só reforça um processo de genocídio.

“A revolta no espírito e no coração dos Guarani-Kaiowá é tanta que eles preferem a morte a esse tipo de dor e sofrimento. Eles não temem a morte” | Foto: campanhaguarani.org
Sul21 – Como se originou o processo de expulsão desses índios das suas terras?
Egon - Os índios já participaram na Guerra do Paraguai, no século XIX, e tiveram vários mortos. Mas eles conseguiram se manter na floresta, porque aquela região foi mantida com a atividade econômica do plantio de erva mate, que não afetava profundamente o meio-ambiente. Os Guarani-Kaiowá conseguiram se manter nas florestas, complementando sua sobrevivência com o trabalho na colheita de erva mate. De 1915 a 1928, o Serviço de Proteção ao Índio (SIP) demarcou oito pequenas áreas indígenas, sendo quatro delas com uma dimensão de 3,5 mil hectares e as outras com 2,4 mil hectares. Com isso, foi acontecendo um processo de implantação lenta da pecuária e de derrubada da mata para plantações de capim. Os índios foram, inclusive, utilizados nesse trabalho de desmatamento. Mas, ainda nesse período, continuavam vivendo nos fundos das fazendas, no pequeno pedaço de mato que sobrava. Durante todo o século passado até 1943, puderam viver relativamente bem. Com o plano do governo de Getúlio Vargas de ocupação da fronteira Oeste através da colonização e da implantação massiva da agricultura, estabeleceu-se a colônia agrícola de Dourados, com mil famílias em mil lotes de 30 hectares. Isso afetou profundamente os índios, que tinham locomoção por toda a região e acabaram confinados em pequenas áreas. As reservas são, na verdade, confinamentos de índios. São depósitos onde eles são colocados para serem disponibilizados como mão-de-obra agrícola.
Sul21 – A partir de que momento os índios começaram a despertar para a reivindicação dos seus territórios originais?
Egon - A partir do inicio dos anos 1980, os índios iniciam um processo de retomada de suas terras tradicionais. A primeira delas foi o Rancho Jacaré, na antiga Fazenda Campanário, que era uma fazenda sede na produção da erva mate na região. Os índios desse território haviam sido colocados num caminhão pela FUNAI e levados ao Paraguai. Depois eles retornaram para lá e foram novamente levados para longe. Eles então caminharam mais de 100 quilômetros e voltaram ao seu espaço tradicional. Foi nesse momento que começaram a ter apoio do CIMI e de outras entidades da sociedade civil. A partir daí, até o início dos anos 1990, houve mais de 10 marchas indígenas de retorno aos seus territórios. Essas terras são inerentes à cultura dos Guarani-Kaiwoá, lá estão os seus antepassados. Além disso, eles têm o direito constitucional de viver lá. Só que, ao retornarem às suas terras, os índios são recebidos por jagunços e pistoleiros fortemente armados, que os colocam para fora. Por isso eles ficam acampados nas beiras das estradas. Existe mais de 30 acampamentos no Mato Grosso do Sul.
“Ao exigirem direito de constituir grupos familiares menores em seus espaços tradicionais, os Guarani-Kaiowá enfrentam uma situação desesperadora de violência e discriminação”
Sul21 – Como são as condições de vida dos índios nas reservas do Mato Grosso do Sul?
Egon - Na área de Dourados existe em torno de 15 mil indígenas confinados em 3,5 mil hectares. Foram levados para lá de 40 regiões diferentes. É uma área totalmente sem mata, sem condições propícias para a reprodução física e cultural dos Guarani-Kaiowá. É impossível, nessas condições, perpetuar a economia e a visão cosmológica de mundo deles. Imagine o tensionamento que isso não produz. Quando, tradicionalmente, havia tensões entre um mesmo grupo indígena, os responsáveis pelo conflito migravam para outro lugar. Agora isso é impossível. Os 40 grupos dessa reserva não têm para onde sair. Há uma situação absolutamente insustentável, os índios têm medo de sair de casa à noite. E isso se repete em outras reservas. A única alternativa que eles encontram é o retorno à constituição de grupos familiares menores em seus espaços tradicionais. Isso é, por direito, o que os Guarani-Kaiwoá desejam. Mas, ao exigirem esse direito, enfrentam uma situação desesperadora de violência e de discriminação.

Agronegócio e forças do Estado agem como negadores dos direitos indígenas, argumenta Egon Heck | Foto: Antonio Cruz/ABr
Sul21 – Os fazendeiros contratam pistoleiros para expulsar os índios de suas terras. E o Estado disponibiliza contingentes armados para executar ordens de despejo. É possível dizer que os índios enfrentam dois inimigos: os grandes proprietários de terra e o próprio Estado?
Egon - Na verdade, de formas diferentes, os condutores do agronegócio e o Estado são negadores dos direitos dos índios. Os fazendeiros não reconhecem o direito dos índios e agem com a violência que é inerente a um processo que sequer espera pela Justiça. Um dia depois do retorno dos índios ao território, os pistoleiros já estão no local. O segundo fator é a Justiça local, que, em geral, tem se posicionado rapidamente em favor dos fazendeiros, com ordens de reintegração de posse. Esse posicionamento contrário e imediato por parte da Justiça ao direito dos índios simula o que o Estado acaba efetuando em seguida, que é a disponibilização de suas forças de repressão para a remoção das comunidades. São procedimentos distintos, mas têm as mesmas consequências.
Sul21 – Como o senhor avalia esse manifesto dos Guarani-Kaiowá, no qual afirmam que preferem morrer a sair de suas terras?
Egon - É difícil termos ideia do tamanho do desespero que eles vivem para que tenham chegado ao ponto de fazer essa declaração. Eu tenho acompanhado de perto esse grupo por vários anos. São 16 anos de reiteradas violências e negações. Eles são espancados, sofrem, têm familiares desaparecidos, passam fome, mas continuam lá no seu canto. Chega um momento em que eles perdem a esperança. Todo sofrimento já impingido durante essa década os leva a uma descrença total em uma possibilidade de continuarem vivendo com um mínimo de liberdade e dignidade em sua terra tradicional. A revolta no espírito e no coração é tanta que eles preferem a morte a esse tipo de dor e sofrimento. Eles não temem a morte. A morte passa a ser um subterfúgio para superar o sentimento maior que eles sentem nessa situação.
“Somos participantes e, de certa forma, responsáveis por um sistema que nega a vida a esses povos. Precisamos mostrar ao mundo que não somos coniventes com o genocídio indígena”
Sul21 – Que tipo de reação positiva pode surgir na sociedade a partir desse desabafo dos Guarani-Kaiowá?
Egon - Precisamos dosar a consequência dessa conclamação, que nos leva a uma possível situação de genocídio. Se isso acontecer, seremos cobrados pela História. Somos participantes e, de certa forma, responsáveis por um sistema que nega a vida a esses povos. Precisamos mostrar ao mundo, de uma vez por todas, que não somos mais coniventes com o genocídio indígena. Essa carta precisa mobilizar a consciência nacional para que se exija atitudes positivas dos poderes responsáveis.
Wilson Dias/ABr
“A prática do governo federal é contrária aos direitos constitucionais e aos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. Essa carta dos Guarani-Kaiowá traz à tona uma realidade gravíssima” | Foto: Wilson Dias/ABr
Sul21 – Há, por parte do governo federal e boa parte da sociedade, a visão de que os índios representam um entrave ao desenvolvimento do país.
Egon - Os índios não têm nenhuma pretensão de inviabilizar nada. Querem apenas continuar vivendo com seus valores tradicionais e seu sistema de vida. Infelizmente, esse pensamento persiste nas opções políticas do governo federal, que prioriza, em todos os aspectos, um sistema de favorecimento do capital em detrimento dos direitos e da vida de populações indígenas. As obras do PAC afetam mais de 500 áreas indígenas. Infelizmente, a prática do governo federal continua sendo contrária aos direitos constitucionais e aos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. Essa carta dos Guarani-Kaiowá traz à tona uma realidade gravíssima. Continuamos com estruturas de Estado e opções políticas que não dão espaço a convivência com esses diferentes povos indígenas. É preciso haver mudanças profundas na relação do estado brasileiro com as minorias.
Sul21 – Qual o papel da FUNAI no atendimento das demandas indígenas?
Egon - Faz cinco anos, em novembro de 2007, que foi assinado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal para que a FUNAI dê a titulação de 36 terras indígenas. Em junho de 2009 deveriam estar entregues os trabalhos de identificação das terras originais dos Guarani-Kaiowá. Passaram-se cinco anos e infelizmente nenhum relatório foi publicado. A maioria sequer foi concluída. É uma demonstração absoluta da ineficácia – quando não da omissão – do governo em relação a esse problema. A FUNAI acaba, em ultima instância, sendo obrigada a adotar uma política de acomodação de interesses que faz com que ela, sucateada, tenha apenas o mínimo de possibilidade de dar alguma resposta a esses problemas. A FUNAI não consegue fazer as coisas avançarem e, em alguns casos, até promove retrocessos. Infelizmente, a FUNAI, assim como foi o SPI, acaba sendo um mecanismo de acomodação em função dos interesses prioritários para o governo.
via Sul21 - 29/10/12

 "Vergonha Nacional" - 04/11/2012
Contra a Comissão do Estado Brasileiro: TODOS PELA DEMARCAÇÃO DAS TERRAS GUARANI KAIOWA (CDH Camara, CFPsicologia, Dhesca, MPF-MS, Cimi,Justiça Global, Sociedade Civil, redes sociais e lideranças Indigenas).

Confinamento Guarani Kaiowa - 04/11/2012
A decisão de permanência dos Guarani Kaiowa da comunidade de Puelyto Kuê em 1 hectare. Nada mais é que UM CONFINAMENTO do século XXI, como todos os outros instituídos pelo governo na época da ditadura militar.

"Concedo o efeito suspensivo ao agravo de instrumento, para determinar a mantença dos silvícolas da comunidade de Pyelito Kuê exclusivamente no espaço de 1 (um) hectare, ou seja, 10 mil metros quadrados, até o término dos trabalhos que compreendem a delimitação e demarcação das terras na região..."(Decisão da 3ª Região da Justiça Federal, São Paulo 30 de outubro de 2012)

Portanto fica decretado a  manutenção de uma família da Fazenda Cambará em 761 hectares, enquanto duas comunidades indígenas,com mais de 200 pessoas, são confinadas em 1 (um) hectare.
Um minuto de silêncio. Senadores, deputados, lideranças Kaiowá Guarani, repórteres, representantes de órgãos do governo e do Ministério Público, aliados da causa, em pé, homenageiam a memória dos professores Genivaldo e Rolindo, que há exatos três anos foram cruelmente assassinados quando retornaram  à sua terra, tekoha Ypo'i, município de Paranhos, no Mato Grosso do Sul. Até hoje o corpo de Rolindo não foi localizado e nenhum dos assassinos punidos. Aplausos. Os lutadores  indígenas tem sua memória reverenciada, apesar de sua luta pela terra continuar emperrada, na malvadeza e burocracias do poder.
Na parede fria de um dos auditórios do Senado, onde  se realizava uma audiência pública sobre a questão Kaiowá Guarani, estavam projetadas as imagens do corpo do professor Genivaldo Vera, boiando nas águas do rio ypo'i, o "sorriso matado", do cacique Nisio Gomes, a líder Damiana junto a seus barracos queimados, à beira da estrada, lembrando seu marido e três filhos mortos por atropelamento, ...outro membro da comunidade de Apika'y espancado por ocasião da expulsão de sua terra...Um quadro tétrico, retrato da "barbárie civilizada"! ou genocídio do século XXI como muitos tem visto a violência contra os Guarani Kaiowa.

Como podemos ficar felizes?

No décimo andar de um belo edifício em Brasília, um anúncio eufórico de uma "vitória". Os índios de Pyelito Kuê não serão despejados. A liminar acaba de ser caçada na 3ª Vara da Justiça Federal , em São Paulo.  O ministro da Justiça José Eduardo Martins Cardoso leu pausadamente a decisão. "por tudo quanto foi exposto, a melhor solução é circunscrever a permanência dos índios num espaço de 1 (um) hectare, ou seja, 10 mil metros quadrados, até o término do procedimento administrativo de delimitação e demarcação  das terras na região" e a sabia e douta decisão continua "os índios  devem ficar exatamente onde estão agrupados, com a ressalva de que não podem estender o espaço a eles reservado em nenhuma hipótese".  O cantador popular concluiria "é a parte que lhes cabe neste latifúndio!!!". Dia 30 outubro de 2012. Século 21. A justiça decide reeditar os "confinamentos" ou "campos de concentração", conforme manifestação de lideranças indígenas, parlamentares e representantes dos movimentos sociais. A deputada Érica Kokai afirmou que "Confinamento é genocídio" e que é esse o processo em curso no Mato Grosso do Sul. A deputada Janete Capibaribe afirmou que a realidade dos Kaiowá Guarani envergonha a sociedade e nação brasileira. Nesse mesmo tom o Deputado Pe. Tom, presidente da Frente Parlamentar Indígena,   afirma que o que acontece com os Kaiowá Guarani se assemelha ao que se passou com os judeus no tempo do nazismo.
As lideranças Guarani, dentre os quais o cacique Lide Lopes de Pyelito Kuê, Otoniel Ricarte, Eliseu Lopes, dentre outros, manifestaram em diversas oportunidades, nesta semana, sua contrariedade com a decisão judicial. "Ficamos meio felizes, porque a comunidade não vai ser expulsa, mas ficamos por inteiro envergonhados, porque nos fecharam dentro de um hectare". Lindomar Terena disse considerar um absurdo deixar os índios dentre de um "chiqueirinho".
Até o linguajar "mantença e silvícolas", nos remete a séculos passados. Não serão necessários grandes esforços para imaginar o drama de sobrevivência dessa comunidade, até que o governo conclua o trabalho de identificação e demarcação das terras na região. Quantos anos de tortura e sofrimento estarão contidos nessa decisão? Quantos meses, anos ou décadas ainda se arrastarão os infindáveis processos de regularização das terras indígenas na região?

Semana Kaiowá Guarani em Brasília

Lideranças expressivas do povo Kaiowá Guarani e Terena do Mato Grosso do Sul, tiveram uma intensa agenda de debates, visitas a autoridades dos três poderes, conversas com Ministros e parlamentares, manifestações públicas e contatos  com a imprensa nacional e internacional.

No Ministério Público Federal, ouviram das Procuradoras Débora Duprat e Raquel Dodge a promessa de atitudes enérgicas de cobrança, inclusive judicial, das responsabilidades do governo federal com relação ao não cumprimento do Termo de Ajustamento de Conduta-TAC, no qual todos os relatórios de identificação das terras Kaiowá Guarani deveria ter sido publicados até 30 de junho de 2009.
Do  ministro da Justiça ouviram os encaminhamentos do governo, para evitar a expulsão da comunidade de Pyelito Kue, aumento da força nacional e polícia federal na região e de que dentro de 30 dias estaria sendo publicado o relatório circunstanciado dessa terra indígena, pela Funai. Disse ainda que "a presidente Dilma quer que se cumpra a Constituição".
O Conselheiro do CDDPH, Eugenio Aragão, que coordena o grupo especial Kaiowá Guarani criada no âmbito desse  órgão, lamentou que o governo só age e se movimenta quando acontecem catástrofes, quando se está à beira do abismo. Cobrou energicamente uma revisão dos métodos de atuação com relação à demarcação e garanti das terras indígenas e ação urgente para pagar a dívida histórica para com esse povo.  Salientou a importância da participação do Conselho Nacional de Justiça – CNJ, que criou uma comissão especial com propósito de agilizar a  demarcação das terras Kaiowá Guarani.
O Procurador Marco Antonio Delfino, do Ministério Público de Dourados, acompanhou a intensa maratona de atividades, dentre as quais a conversa com vários ministros do Supremo Tribunal Federal. Insistiu na inadiável ação do governo no sentido de começar a encontrar caminhos para resolver a gravíssima situação das terras indígenas no Mato Grosso do Sul. Externou os dados que revelam essa situação insustentável, dentre os quais o fato de que os últimos dez anos os Kaiowá Guarani conseguiram efetivamente apenas dois mil hectares, e de que as terras ocupadas por esse povo representam apenas 0,1% do território do Estado.
O secretário do Cimi, Cleber Buzatto, em vários momentos chamou atenção para a morosidade e omissão do governo, enquanto nos três poderes avançam iniciativas que visam tirar direitos constitucionais dos povos indígenas e agravar ainda mais a situação de violência. Falou da importância das iniciativas de ampla divulgação, especialmente nas redes sociais, da realidade indígena, para que desse processo de comoção nacional emergem ações e pressão pelo respeito aos direitos dos povos indígenas e a imediata regularização das terras indígenas.
Tiveram reuniões de definição de ações estratégicas na Articulação dos Povos Indígenas do Brasil-APIB, na Funai e outros órgãos e entidades. Levam em suas bagagens de retorno às aldeias a certeza de que a luta por seus direitos avançou, mas que devem se intensificar as alianças e solidariedade em nível mundial e as lutas de retorno às suas terras tradicionais, como afirmou Eliseu Lopes "Estamos cansados de bonitos discursos e promessas. Vamos continuar nossas ações de retomar nossas terras".

por Egon Heck e Laila Menezes

Reportagem: "Mineração ameaça índios Yanomami"


Fotos: Odair Leal

Para ler:

Cf.

Lideranças indígenas pediram nesta quinta-feira (1) urgência na demarcação de terras da etnia Guarani Kaiowá. Elas participaram de audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado. “Já ouvimos muito discurso bonito, recebemos cesta básica, mas isso não resolve. Queremos a demarcação do nosso território”, afirmou o líder kaiowá Elizeu Lopes.
Segundo ele, até agora, os povos indígenas só estão vendo os índios serem retirados das áreas que ocupam e não há sinais de quando vai começar a demarcação das terras. “Não aguentamos mais viver em baixo de uma lona preta, as crianças tomando água suja, sem ter condição de vida digna com nossas famílias. Os guaranis kaiowás vêm morrendo de atropelamento na beira da estrada, ataque de pistoleiro, muitos matando nossas lideranças. Não aguentamos mais isso”, disse Elizeu. Outro ponto destacado pelos representantes guranis kaiowás foi a necessidade de apuração das mortes de líderes indígenas.
A presidenta da Fundação Nacional do Índio (Funai), Marta Maria Azevedo, também participou da audiência pública e destacou que a situação dos guaranis kaiowás é única e a mais preocupante em todo o Brasil. “A gente tem certeza que é preciso um pacto social e que a Funai, sozinha, não dá conta. O processo administrativo de demarcação é longo, é demorado, envolve diferentes atores. Então, por isso, a gente precisa sim de vigilância constante porque a situação é grave.”
O secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Cléber Buzatto, cobrou uma melhoria na estrutura dos estados para tratar das questões indígenas. “Não pode ocorrer mais de a Funai gastar com a rubrica de demarcação de terra só R$ 29 milhões, como aconteceu em 2010 e 2011. Isso infelizmente não vai resolver a situação. Para ele, a Funai precisa fazer concursos específicos para viabilizar e acelerar os processos de demarcação de terras indígenas que “ estão muito aquém do que é necessário”.
Para o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), a situação dos guaranis kaiowás  precisa ser acompanhada de perto pela Comissão de Direitos Humanos do Senado. “É uma situação que mobilizou a opinião pública, lamentavelmente, só agora. Mas é um drama que os povos guaranis sofrem há muito tempo. É necessário um diálogo permanente com as instituições, com a Funai, com o Ministério da Justiça, com o governo do estado de Mato Grosso do Sul”, ressaltou.

fonte: Agência Brasil

Cf.

"Somos todos Guarani Kaiowá"



Uma intensa campanha brota e circula nas redes sociais e nas ruas. É o Brasil e o mundo se dando conta de um drama secular. Hoje a campanha ganhará importantes aliados  e visibilidade, com as propostas de adesão da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, da Comissão da Amazônia, dentre outras. Ganhará também espaço e visibilidade com uma entrevista coletiva on line no Conselho Nacional de Psicologia. E ganhará as ruas com uma caminhada na esplanada dos Ministérios.
Todos somos e seremos um pouco mais Guarani Kaiowá, cidadãos brasileiros e cidadãos do planeta terra, na medida em que nossa comoção indignada frente a violência institucionalizada e mortes anunciadas, se transformar em ações que exigem respeito aos direitos humanos e da natureza. Que beleza se dessa campanha emergir um  país um pouco mais justo, com o reconhecimento e demarcação das Terras Kaiowá Guarani e de todos os povos indígenas do país.
sessão histórica
O Planalto do poder não mais poderia continuar omisso vendo o furacão passar. A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, colocou na pauta da 213ª ordinária, a situação Kaiowá Guarani,com a presença de uma delegação indígena deste povo. Também estiveram presentes os membros da Comissão Especial Kaiowá Guarani, criada no âmbito desta secretaria do governo. Dentro os indígenas  estavam os líderes das comunidades em situação de violência e conflito: Lide Lopes, de Pyelito Kuê, Jenilton do tekohá Guayviry, filho do cacique Nisio Gomes, assassinado há quase um ano, Dionisio liderança de Arroio Korá, comunidade que esta em retomada de parte de suas terras já homologadas, e sob intensa pressão e violência de pistoleiros.

Outras lideranças expressivas do movimento. Lindomar, liderança do povo Terena, relatou a grave situação do  povo kadiweu  do Mato Grosso do Sul, contra os quais também pesa ação de despejo, embora seja uma terra indígena já demarcada, homologada e registrada. É uma insegurança jurídica absurda, pois se isso acontece com as terras regularizadas, imagina o que não poderá suceder às demais terras indígenas. Tudo isso tem sido estimulado pela portaria 303 da AGU. Nos próximos dias está previsto o julgamento, no STF, da petição que poderá por fim a essa situação. Ressaltou que a decisão da 3ª Região da Justiça Federal, tomou decisão favorável  à permanência dos índios de Pyelito Kuê, mas de forma vergonhosa.' Como duzentos índios vão sobreviver em um hectare de terra?"
A chegada do Ministro da Justiça e da delegação Kaiowá Guarani foram aplaudidas de pé. A imprensa estava ali postada com suas ferramentas, ávidos de novidades.
A Ministra dos Direitos Humanos ressaltou a importância que os povos indígenas tem para o Brasil e em consequência também para o governo, razão pela qual essa secretaria não poderia deixar de promover essa reunião de cooperação e trabalho sobre essa causa. O Ministro da  Justiça se esmerou em anunciar as medidas concretas que estavam sendo tomadas pelo governo: empenho para a cassação da liminar, cujo resultado anunciou efusivamente logo depois, reforço do policiamento com a presença de maiores contingentes da Polícia Federal e Força Nacional na região e medidas para agilização dos processos de demarcação das terras indígenas na região do Mato Grosso do Sul. Afirmou que dentro de 30 dias estaria sendo publicado o relatório da terra indígen Pyelito Kuê. Disse ser vontade expressa da presidente Dilma, que se cumpra a Constituição, e que ordenava que fossem tomadas todas as medidas cabíveis para que isso aconteça com relação as terras Kaiowá Guarani.
O Dr. Eugenio Aragão, que preside a Comissão Especial Kaiowá Guarani, lamentou que o governo só age quando acontecem catástrofes, quando se chega à beira do abismo. Lembrou que apesar de 91% das terras indígenas estarem já demarcadas, o que sobrou são as áreas mais difíceis “são carne de pescoço”! Nessas regiões, em especial, as populações indígenas continuam sendo vistas como estorvo e entrave para o progresso.  Ensejou que seria o momento de avaliar os erros do governo no tocante à regularização das terras indígenas. Disse ser urgente a solução da questão fundiária, caso contrário se continuará alimentando o genocídio, o ódio a raiva  o rancor contra esse povo indígena.
Marta Azevedo, presidente da Funai, de forma emocionada, e por vezes falando em Guarani, reafirmou seu compromisso com esse povo, dizendo que aceitou a presidência do órgão como forma de contribuir  diretamente com a conquista dos direitos dos Kaiowá Guarani. Admitiu que são enormes as dificuldades para fazer avançar os processos de demarcação, mas que tem conseguido alguns compromissos, como o dos antropólogos dos 6 Grupos de Trabalho, que prometeram  concluir e entregar os relatórios até o final do ano.
Passos contra o genocídio
A delegação Kaiowá Guarani em Brasília, teve uma intensa agenda de conversações, debates, e reuniões com órgãos de Direitos Humanos, Ministério Público e Supremo Tribunal Federal. Na avaliação das lideranças o caminho é este. Continuarão sua luta na volta a seus tekohá, e estarão em Brasília, nas mobilizações por esse país afora, para somar forças e sensibilizar a sociedade brasileira e mundial sobre o genocídio que está em curso, com inúmeras vidas ceifadas e uma violência institucionalizada.
Hoje irão participar de coletivas de imprensa, manifestações públicas, participação em eventos na Câmara dos deputados. Amanhã haverá uma audiência pública, convocada pela Comissão de Direitos Humanos do Senado.
Por todo o país aumentam as mobilizações  contra o genocídio Guarani Kaiowá e pelos direitos dos povos indígenas. Já estão agendadas  atos públicos em quase duas dezenas de cidades brasileiras, especialmente as capitais de Estados.
Numa reunião no Centro de Defesa dos Direitos Humanos, na Cãmara dos Deputados, presidida pela deputada Erica Kokai, ficou claro a importância de acentuar essa campanha de indignação e comoção nacional, a fim de chegar à coordenação de algumas ações concretas que levem ao reconhecimento dos direitos desse povo e estanque as violências, injustiças e genocídio em curso.
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